(H)á tempestade em nós
Pouco antes do meio dia eu estava caminhando pela passarela da Ipiranga, rumo ao ponto de ônibus, quando uma sensação completa de bem estar me atingiu. Sempre fui muito convicta ao falar na minha falta de crença na felicidade, ou ao menos na felicidade que todos falam. Para mim, essa palavra sempre significou paz de espírito e algo praticamente inalcançável no planeta Terra. Por este mesmo motivo, nunca gostei de responder perguntas como “você é uma pessoa feliz?”.
Emoções costumam mudar frequentemente, não existe uma resposta para isso.
Igualmente sempre percebi a minha necessidade de passar um tempo sozinha. Apenas aproveitando da minha própria companhia e meus pensamentos. Isso sempre foi uma necessidade minha.
Quando comecei a faculdade e a estagiar, meus dias eram lotados de pessoas e pessoas e pessoas e mais pessoas por onde quer que eu passasse. A minha cabeça nunca aguentou tanto convívio sem tirar um tempo para relaxar. Meus finais de semana se resumiam em ficar dentro de casa tentando aliviar tudo aquilo. Se chegava visita, eles me encontrariam apenas para a hora do “Oi” e do “Tchau”.
O tempo foi passando e esses momentos se tornaram cada vez mais escassos. Inexistentes, eu afirmaria.
Não conseguia mais passar um tempo sozinha sem me afundar em pensamentos ruins que me faziam querer chorar por qualquer motivo. Comecei a evitar o isolamento e a atolar minha agenda com todos os eventos sociais possíveis. Qualquer coisa era melhor do que ficar em casa, do que ficar sozinha e com tempo para pensar. De certa forma, me afastei de mim.
Entretanto, foi nesse sábado, logo após a aula, que eu me senti viva novamente.
Já fazia um ano que eu não conseguia aproveitar o campus da Universidade que eu tanto amo. Um ano sem caminhar tranquilamente até o ponto de ônibus. Sem parar para apreciar as árvores que envolvem o prédio em que estudo.
Um ano inteiro sentindo o estresse crescer dentro de mim, a correria do dia a dia invadindo cada passo e as consequências físicas e emocionais se apresentando sem um powerpoint bonitinho.
Ter andado tranquilamente até a biblioteca, aproveitado o solzinho, escolhido um livro para ler sem a preocupação de demorar procurando e, poder observar o céu tão azul enquanto caminhava me fez perceber que eu ainda sou eu. Ainda gosto de ficar sozinha. Ainda gosto da minha companhia e sinto falta, frequentemente, de poder fazer cada coisa no seu tempo.
A sensação de ainda existir e de não ter preocupações, naquele momento, foi um acolhimento, um abraço e uma certeza de que a música que guiou minhas crises existenciais durante o ensino médio sempre esteve certa: nada dura para sempre, não importa como se sinta hoje. Como eu sempre disse, a vida é feita de momentos. E alguns podem não ser muito bons, mas até mesmo os dias mais tempestuosos dão lugar aos dias ensolarados.
*Esse texto foi escrito dias antes da OMS declarar a Pandemia da Covid-19. Por isso, o próximo texto falará mais sobre a fase que estamos vivendo agora, a fase que nos obriga a diminuir a correria rotineira.


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