O primeiro elogio de uma mulher é um assédio

 


alguns dias eu venho escrevendo este mesmo texto, editando e revisando e apagando e reescrevendo e deixando ele em banho maria, lapidando e esculpindo cada palavra para deixá-lo o mais compreensível e natural possível. É difícil porque escrever nunca foi uma tarefa fácil. É transmissão de pensamentos, de ideias, e, por fim, espero que consigam ter uma leitura leve mesmo que o assunto seja este.

 

Eu estou acostumada a caminhar bastante, todos os dias, de um lugar ao outro. O trajeto se repete todos os dias por um determinado tempo e, independente de onde seja, sempre recebo comentários e olhares indesejados de homens aleatórios e, com toda a certeza, igualmente indesejados. Foi em uma dessas andanças, durante a tarde, que me peguei pensando sobre o assunto. Lembrando, na verdade, sobre coisas que vivenciei há muito tempo e ainda passam pela minha cabeça, pois deixaram marcas em minha memória — apesar de, aparentemente, serem coisas supérfluas do cotidiano… coisas supérfluas que não são tão supérfluas, pois são comportamentos que precisam ser modificados e atos que precisam ser repensados por cada um de nós. Atos que estamos tão acostumados que mal percebemos. Portanto, exemplifico minha linha de pensamento através dos flashbacks a seguir:

 

Quando eu era mais nova lembro claramente de ouvir um primo mais velho dizendo, em alto e bom tom, que não gostaria de ter uma filha mulher. Aquela frase ainda me gera a mesma revolta e desgosto da época em que a ouvi. E vocês conseguem imaginar qual foi a sua explicação para dizer uma coisa dessas? Pois, então, eu explico: filhas mulheres dão muito trabalho, pois os “caras” vão atrás.

 

Exatamente. Mas então tudo bem, né? 
Remoam esse parágrafo mais um pouco porque em breve voltaremos para ele.

 

Agora deixem-me contar uma outra história a vocês: ainda na minha infância, lembro de um primo meu colecionando as tampinhas de cerveja de sua mãe. Naquela época as cervejas ainda sexualizavam mulheres de maneira escancarada e é claro que no fundo interno da tampinha existiria a imagem de uma mulher de biquíni. Ele era uma criança, três anos mais velho que eu.

 

Imaginem, deixar que uma criança de, sei lá, uns dez anos, colecionasse imagens de mulheres seminuas como se fossem peões, ioiô e bolinhas de gude. Esses exemplos ocorreram há uns dez anos, mas a história segue se repetindo de diferentes maneiras. Todas de acordo com o período em que estamos vivendo, sendo reconstruídas e contextualizadas neste cenário tecnológico e virtual que tanto permanecemos atualmente.

 

Antes de eu sequer pensar em redigir este texto estava perdendo um tempo no Instagram e em um dos stories que visualizei havia um print de uma mãe dizendo para uma menina que seu filhinho havia visto um dos stories publicados e achado a garota uma gata (a versão light de: insira sons indesejáveis que nós mulheres escutamos de homens na rua). A menina achou graça, eu não.

 

E o motivo é claro: estamos ensinando crianças a assediarem desde cedo.

 

Quantos garotos de outras escolas paravam no portão da sua escola para mexer com suas colegas? Com você?

 

Foi assustador pensar em tudo isso e em tantas outras coisas que nós, mulheres, vivenciamos durante nossa vida e perceber, por fim, que nosso primeiro elogio é um assédio.

 

Estamos recebendo os exemplos desde nosso nascimento.

 

O primeiro elogio de uma mulher é um assédio porque sempre que uma de nós nasce, nossos pais ouvem a frase “como ela é linda, vai te dar muito trabalho quando crescer” e, quando um homem nasce, “esse daí vai ser um pegador” é o que eles escutam mais. Talvez ele até dê trabalho, mas porque ele será o “predador”, não é? E, no final da “caça”, trará um prêmio para casa. Um prêmio do qual se vangloriará para os amigos com piadas repulsivas e gestos obscenos.

 

Lembro de todas as vezes que um cara tentou chamar minha atenção durante a infância, início da pré adolescência, e nota: fase em que eu não saía sozinha na rua.

 

São crianças assediando outras crianças. Quando iremos todos, como sociedade, perceber a problemática disso tudo e realmente tomar alguma atitude?

 

Sim, senhores, a sua filha vai te dar muito trabalho já que o seu filho vai estar ocupado atrás de “pegar” ela, já que você mesmo o incentiva a fazer isso, não é mesmo?

 

Como vocês podem “elogiar” uma criança desse jeito, com tal pensamento?
Como a primeira coisa em que você consegue pensar ao ver uma bebê é no que vai acontecer quando ela crescer mais um pouquinho? Sobre como vai ser o relacionamento dela com os meninos?

 

O primeiro elogio de uma mulher é um assédio. E isso pra mim está muito bem claro.
Principalmente porque, menina, os garotos vão dar em cima de você aos cinco anos de idade, querendo passar a mão em você porque é isso o que os pais, primos e tios dizem que eles devem fazer, porque eles precisam ser “machos”.

 

O primeiro elogio de uma mulher vai ser um assédio porque o seu corpo, garota, é objetificado antes de se desenvolver, com base em fotos de mulheres maduras. Fotos que antes iam em tampinhas de garrafa e que agora, em nosso novo contexto social, estão nos celulares de crianças e pré-adolescentes, sendo reencaminhadas todos os dias.

 

O primeiro elogio de uma mulher é um assédio porque ela é a filha que vai dar trabalho enquanto vocês se divertem criando homens para repetir o processo.

 

O primeiro elogio de uma mulher é um assédio porque vocês acham engraçadinho ver um menininho fazendo comentários sobre a beleza de uma garota, comentários que não são normais para a sua idade, principalmente fazendo uso da mesma linguagens que os assediadores utilizam.

 

O primeiro elogio de uma mulher é um assédio porque, enquanto essas crianças já são objetificadas, a propagação de um padrão de corpo se reinicia, fazendo com que menininhas já conversem sobre colocar silicone e ter o corpo que as modelos de cerveja tinham.

 

E com o primeiro elogio sendo um assédio, com o processo de criação se repetindo, o sistema criado mata mulheres, destrói homens e dizima a humanidade que ainda teria a chance de existir.

 

Mas calma, o buraco vai muito mais embaixo e teremos, ainda, muito para conversar.

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